“O Senado é um ambiente hostil para quem não entra no esquema”

Cassada pela Justiça eleitoral, Selma Arruda faz balanço de passagem pelo Senado e critica Fávaro Victor Ostetti/MidiaNews A senadora cassada, Selma Arruda: "Eu me elegi sozinha" CÍNTIA BORGES DA REDAÇÃO

Um ano após ingressar no Congresso Nacional, a senadora cassada Selma Arruda (Podemos) afirmou ter encontrado no Senado Federal um “ambiente hostil” e que isso foi uma das maiores dificuldades da sua legislatura.

 

“O Senado Federal, ao contrário do que parece, é um ambiente hostil. Ele não é hostil para aqueles que chegam dando tapinhas nas costas, trocando favores, e entrando no esquema. Quem chega com vontade de fazer aquilo que deveria ser feito, que é o mínimo, é muito hostilizado”, disse, em entrevista ao MidiaNews, na tarde da última quinta-feira (30).

 

“Nós temos o Renan Calheiros [MDB-AL], que é uma figura sórdida e que manda no Senado como se fosse dono. É um coronel, é uma coisa horrorosa. As regras mudam de acordo com o humor das pessoas, não se respeita a Constituição, não se respeita o regimento do Senado”, completou.

 

Selma disse que com a formação do grupo “Muda Senado”, da qual faz parte mais de 20 senadores, o local ficou mais tolerável de se conviver. Mas revelou que, por diversas vezes, pensou em desistir.

 

“O ambiente é muito pesado. Ou seja: ou você dança a música que está tocando ou você sai do baile. E é muito difícil você engolir isso no dia a dia. Dá vontade de não ir, de desistir. Eu cansei de me arrepender de ter entrado naquilo ali. É bruto demais”, afirmou.

 

O ambiente é muito pesado. Ou seja: ou você dança a música que está tocando ou você sai do baile. E é muito difícil você engolir isso no dia a dia

Selma afirmou que o seu rival, o ex-vice-governador Carlos Fávaro (PSD) – autor da ação que culminou na sua cassação – usou “métodos escusos” para que ela fosse condenada.

 

A juíza aposentada ainda falou sobre eleição suplementar ao Senado, futuro na política e o Governo Bolsonaro.

 

Selma e seus suplentes, Gilberto Possamai e Clérie Fabiana Mendes, foram condenados por caixa 2 e abuso de Poder Econômico no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

 

A condenação foi mantida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em dezembro passado. Com isso, eles tiveram os mandatos cassados e estão inelegíveis por oito anos.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews –  A senhora decidiu ser candidata ao Senado, enfrentou uma batalha eleitoral e venceu. Agora foi cassada pelo TSE. Como se sente depois dessa caminhada?

 

Selma Arruda – Sinto que fiz a minha parte. O Brasil está em um momento de batalha declarada entre o “establishment” e as pessoas que querem mudar isso. Toda guerra tem baixa e eu acho que fui uma delas. É normal.

 

Mas eu não me perdoaria se não tivesse tentado. É essa a sensação que tenho.

 

 

MidiaNews – Imagino que a senhora ficou arrasada, como ficaria qualquer ser humano. Chegou a ficar deprimida?

 

Selma Arruda – A sensação não é de depressão. Quando você é vítima de uma injustiça, a sua reação é mais de indignação do que qualquer coisa. Principalmente eu, que vim do Judiciário. É tão importante você ter responsabilidade com as decisões que você toma, analisar provas com decência e coerência. O que foi feito comigo é nítido.

 

Primeiro, foi uma pressa tresloucada. Segundo, um uso indevido de provas que não eram provas. O relator [do processo no TRE, Pedro Sakamoto] chegou a mostrar durante o voto dele uma foto minha como se fosse um santinho que eu estivesse usado na campanha. Sendo que, no processo, essa foto está acompanhada de outras duas fotos, e eram fotos usadas para realizar uma pesquisa qualitativa.

 

Era uma pesquisa com três fotos minhas, e as pessoas optavam por quais daquelas imagens eram mais simpáticas. E ele disse que aquilo era um santinho que eu fiz antes da campanha. Engraçado – e para mim muito revelador – é que por coincidência é a mesma foto que o advogado do Fávaro [José Eduardo Cardozo] usou quando estava fazendo a defesa oral na Corte. Que dizer, em absoluto desprezo pelo que estava no processo. Foi feito um teatro ali, e as coisas aconteceram como o encomendado.

 

Eu não tenho sentimento por essa pessoa [Carlos Fávaro], a não ser desprezo. Ele se utilizou de métodos escusos para que o processo fosse decidido em um tempo relâmpago

MidiaNews –  A senhora afirma que foi vítima de um complô, de perseguição porque estava incomodando muita gente. Pode explicar melhor?

 Selma Arruda – Enquanto esse processo não se encerrar definitivamente, prefiro não entrar em detalhes sobre isso. Depois vou fazer questão, inclusive, de dar nomes aos bois.

O [senador pelo Paraná e presidente nacional do Podemos] Álvaro Dias me relatou que, em conversas com ministros, eles disseram que não têm simpatia por pessoas que saem do Ministério Público e do Judiciário e vão para a política. E um ministro chegou a dizer que achava que deveria criar uma regra, uma espécie de quarentena, para as pessoas não saírem imediatamente do Judiciário e do MP para irem para política. Por que isso? Só eles sabem.

Mas ficou muito claro o recado que foi dado tanto para o Deltan Dallagnol [procurador que integra a força-tarefa da Operação Lava Jato] quanto para o Sérgio Moro [ex-juiz federal e atual ministro da Justiça]. É óbvio! É uma coisa que não interessa para a classe política e para certas pessoas do Judiciário: que a política seja “poluída” por um juiz, promotor e gente que combate à corrupção. Não querem.

MidiaNews – Então a senhora ainda tem muito a revelar. Não poderia nos contar um pouco do que tem a dizer?

 Selma Arruda – Tenho. Mas não posso adiantar nada.

MidiaNews – A senhora nutre algum sentimento ruim sobre o ex-vice-governador Carlos Fávaro, autor da ação que culminou em sua cassação?

 Selma Arruda – Eu não tenho sentimento por essa pessoa, a não ser desprezo. Ele se utilizou de métodos escusos para que o processo fosse decidido em um tempo relâmpago. Veja por exemplo a situação do deputado federal José Medeiros, que é do meu partido, meu amigo. Só aqui em Mato Grosso, o processo dele demorou quatro anos para ser julgado. Agora tem um recurso, e ninguém nem olha para o recurso. Não vai ser julgado tão cedo.

O meu levou quatro ou cinco meses aqui, mais cinco ou seis meses no TSE. O parecer do Ministério Público Federal saiu em sete horas. E isso é óbvio que foi uma coisa muito bem trabalhada nos bastidores. Quem ali tem essa livre circulação, principalmente em Brasília, é o advogado do Fávaro [Cardozo]. E se utilizou de expediente pouco republicano para conseguir o que quer.

 

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